Representação de Nicácia e sua importância para o Cabula

Fonte: Desenho elaborado por Denissena a partir da descrição da pesquisadora. (MARTINS, 2017).

 

O mês de novembro nos remete à luta por justa social aos povos negros. A Lei 12.519 de 2011 instituiu oficialmente o 20 de novembro como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Essa data marca a morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), um escravizado que foi líder do Quilombo dos Palmares e que morreu defendendo sua comunidade (Nova Escola, 2018). Muito mais que a morte desse importante protagonista histórico, esse é um momento de rememoração e, sobretudo, de luta dos negros por seus direitos contra a escravidão, opressão e contra a ofuscação social de tantos homens e mulheres que protagonizaram a história da Bahia. Não obstante, neste texto, refletiremos sobre a importância, atuação e historicidade da importante mulher Nicácia da França para a comunidade quilombola do Cabula.  

 

Nicácia da França viveu até o início do século XIX e foi considerada uma das líderes da localidade do Cabula. De acordo com o historiador João José Reis (2008), a sacerdotisa foi julgada pelas autoridades da época como “feiticeira local”. Pesquisas realizadas pelo historiador, baseadas em fontes documentais e nos relatos do memorialista José Alvares do Amaral, apontam que a parda, de meia idade, dificuldades motoras nos pés, braços e se locomovia por meio de uma cama improvisada com rodas (REIS, 2008), provavelmente fabricada em madeira retirada do próprio local. As limitações físicas não nulificavam o respeito, admiração, reverência e até fama nutrida tanto pelos moradores dos arraiais do Cabula, quanto por residentes da cidade, uma vez que esta era respeitosamente procurada para que adivinhasse a sorte, uma possível vidente (MARTINS, 2017). Também atendia realizando outros trabalhos de cura espiritual, manuseando e demonstrando seus conhecimentos das ervas do local. Eram esses moradores da cidade que a sustentava com o que necessitasse, em troca de seus serviços religiosos (REIS, 2008). 

 

Sobre a fama de Nicácia na cidade, o autor José Álvares do Amaral, que vivenciou o contexto histórico da metade do século XIX e escreveu a obra "Resumo Chronologico e Noticioso da Província da Bahia desde seu descobrimento em 1500", revela que as histórias que se divulgavam sobre seus feitos de "feitiçaria e sortilégios" eram impressionantes, de tal maneira, que no momento da sua prisão pelas tropas do conde da Ponte, esta foi submetida a um "desfile" de exibição, na qual atravessou presa em seu carro as ruas da cidade e foi acompanhada por "muito povo",  conforme pode ser observado na citação que segue.

 

 “Morreu nesta cidade a celebre Nicacia, que tão falada foi por muito tempo, e da qual ainda hoje se referem factos interessantes. Constando ao Governador Conde da Ponte, que ela era muito feiticeira, mandou-a prender no Cabula, onde ela habitava e exercia suas feitiçarias e sortilégios, atravessando presa as ruas da cidade em um carro, por ser aleijada, sendo acompanhada de muito povo”. (AMARAL, 2013, pp. 128-129).

 

Conforme podemos constatar, Nicácia provavelmente morreu na cadeia da Cidade, mas como uma importante protagonista que atuou no quilombo do Cabula, a sua historicidade e memória não podem ser silenciadas pela história. Eis a representante mulher, preta, sacerdotisa da fé de matriz africana e resistente às agruras da escravidão do Cabula ancestral.   

REFERÊNCIAS

AMARAL, José Álvares do. Resumo Chronologico e noticioso da Província da Bahia - desde seu descobrimento em 1500. V. I. Lauro de Freitas - Ba. Livro.com, 2013. (Coleção Tempo Antigo: Memórias da História da Bahia).

Dia da Consciência Negra: Zumbi, feriado e reflexão nas escolas. Revista Nova Escola, 2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/13223/dia-da-consciencia-negra-zumbi-feriado-e-reflexao-nas-escolas?gclid=CjwKCAjwq9mLBhB2EiwAuYdMtdGYUIeRh4vdlHaczsvVVVVd7pce4mqFB10PKLqutELixi1vaYqs3BoC53QQAvD_BwE

MARTINS. L. C. A.; História Pública do quilombo do Cabula: representações deresistências em museu virtual 3D aplicada à mobilização do turismo de base comunitária. 311f. il. 2017. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia,Salvador, 2017.

REIS, João José. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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